Relatório da WWF alerta para a perda de 68% da biodiversidade mundial – Lisboa Green Capital 2020
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Relatório da WWF alerta para a perda de 68% da biodiversidade mundial

A perda da biodiversidade é cada vez maior, atingido os 68% de declínio das populações globais de mamíferos, pássaros, anfíbios, répteis e peixes nos últimos 46 anos. É isto que revela o novo relatório “Planeta Vivo” 2020, da AP/WWF.

A espécie humana está a usar cerca de 56% da biocapacidade do planeta. O consumo excessivo, o aumento da pegada ecológica, o crescimento da população e a agricultura intensiva são as causas principais deste fenómeno que se torna cada vez mais devastador.

Nos períodos compreendidos entre os anos de 1970 e 2016 houve um declínio de 68% das populações globais de mamíferos, pássaros, anfíbios, repteis e peixes. Mais 40% se comparado com 2012, quando os valores se encontravam nos 28%, o que acaba por nos mostrar como este processo de declínio tem sido cada vez mais rápido.

Os valores ganham uma proporção ainda mais avassaladora se olharmos para as sub-regiões tropicais do continente americano: aqui o declínio dos animais chega aos 94%, “a maior queda observada em qualquer parte do mundo”. Já no que toca a ecossistemas de água doce, concluiu-se que “quase uma em cada três espécies” está ameaçada de extinção, sendo a média do declínio de 84%, das populações observadas, “o equivalente a 4% ao ano desde 1970”, pode ler-se no Relatório “Planeta Vivo 2020”, apresentado pela Associação Natureza Portugal em colaboração com a WWF (ANP/WWF), apresentado quinta-feira.

E porquê que estes dados são importantes? “É importante porque a biodiversidade é fundamental para a vida humana na Terra, e as evidencias são inequívocas: ela está a ser destruída por nós a um ritmo sem precedentes na história”, pode ser lindo no documento. Aos impactos no ambiente acresce ainda os riscos para a saúde humana.

Sabemos que, desde a revolução industrial, todo o processo de destruição tem vindo a ser acelerado, as atividades humanas têm destruído as florestas, pântanos, pastagens e outros ecossistemas importantes, o que ameaça o bem-estar humano. De acordo com o relatório, 75% da superfície terrestre sem gelo do nosso planeta já sofreu alterações significativas, a grande maioria dos oceanos está poluído, assim como já se perdeu 85% da área referente a pântanos.

Contudo, a biocapacidade global aumentou em cerca de 28% nos últimos anos, devido aos desenvolvimentos do setor tecnológico e das práticas de gestão da terra. No entanto, esses valores podem ser uma superestimava dado que as estatísticas da ONU não incluem perdas subestimadas como a erosão do solo, o esgotamento das águas subterrâneas e a desflorestação. Mesmo assim, este aumento não acompanhou o crescimento do consumo agregado: a pegada ecológica humana – também estimada a partir das estatísticas da ONU, teve um incremento de cerca de 173% no mesmo período, excedendo a biocapacidade do planeta em 56%. Assim sendo, para corresponder ao estilo de vida adotado a nível mundial, precisaríamos de mais 1,6 recursos do que os que a Terra pode gerar, afirma Catarina Grilo da ANP/WWF na apresentação do relatório.

Se os dados mundiais são preocupantes, Portugal não passa impune “Os portugueses precisam de 2,52 planetas para manter o seu atual estilo de vida”, refere o relatório da WWF, o que por sua vez é preocupante pois representa um aumento referente aos valores de 2018, quando “só” precisaríamos de 2,23 planetas. “Olhando para a pegada ecológica, vemos que Portugal subiu para a 46.ª posição da lista de países com maior pegada, quando em 2018 estava na 66.ª posição. A recuperação económica entre 2014 e 2016 e o consequente aumento do consumo e de turistas contribuem para isto”, refere a diretora de conservação da ANP/WWF.

A WWF destaca ainda que um dos principais desafios atuais é o de “transformar as práticas agrícolas e de pesca, muitas das quais não são hoje sustentáveis, em atividades que forneçam alimentação nutritiva e acessível, enquanto protegem e conservam a biodiversidade”.

Ou seja, isto passa por produzir de forma mais sustentada e consumir menos e de forma mais consciente, tentando ao máximo evitar o desperdício alimentar pois este tem um grande impacto nas alterações climáticas. “São responsáveis por pelo menos 6% do total dos gases com efeito de estufa emitidos, três vezes mais do que as emissões globais da aviação”, explica o relatório.

O Relatório Planeta Vivo ou Living Planet Report
Tido como a publicação mais importante da WWF relativamente ao estado e a saúde do planeta, este é um instrumento que permite medir e avaliar o estado da biodiversidade global e as pressões humanas sobre a natureza e um veículo para partilhar e promover estes conceitos entre o maior número de pessoas.

O Relatório Planeta Vivo usa o Índice Global Planeta Vivo para medir as mudanças na saúde dos ecossistemas do planeta, avaliando 9.000 populações de mais de 2.600 espécies. O índice global revela quase 30 por cento de queda desde 1970, sendo os trópicos os mais atingidos, registando-se um declínio de 60 por cento em menos de 40 anos. Assim enquanto a biodiversidade revela uma tendência decrescente, a Pegada Ecológica sobre a Terra aumenta, um dos outros indicadores-chave utilizados no relatório, ilustrando bem como a nossa crescente procura pelos recursos naturais se tornou insustentável.

Ainda de acordo com o Índice Global Planeta Vivo, o declínio da biodiversidade, desde 1970 tem sido mais rápido nos países de baixo rendimento, o que demonstra como as nações mais pobres e vulneráveis estão a subsidiar os estilos de vida dos países mais ricos. A diminuição da bio capacidade (capacidade de uma região para regenerar os seus recursos) vai levar à necessidade de importar recursos essenciais aos ecossistemas, uma tendência que os tornará mais vulneráveis a longo prazo.