Projetos Sustentáveis em Portugal: Manta Catalog Azores – Lisboa Green Capital 2020
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Projetos Sustentáveis em Portugal: Manta Catalog Azores

Os Açores têm a primeira base de dados fotográfica de jamantas chilenas do mundo – uma espécie de raia pouco conhecida, mas que é avistada todos os anos no arquipélago. O projeto desenvolvido pela bióloga portuguesa Ana Filipa Sobral valeu-lhe o segundo lugar do Prémio Terre de Femmes em 2019.

“A base de dados tem 143 indivíduos de jamantas chilena e 29 indivíduos de manta oceânica, uma segunda espécie também avistada no arquipélago”, conta Ana Sobral. Criado há oito anos, o projeto “Manta Catalog Azores”, tem como objetivo “aumentar o conhecimento sobre as espécies de jamantas que visitam o arquipélago e contribuir para a sua preservação”.

Corria o ano de 1998 quando Filipa Sobral, com nove anos, viu jamantas pela primeira vez. Na altura já sabia que a sua vida passaria pela biologia marinha, só não sabia que isso lhe iria valer um prémio – Terre de Femmes, promovido pela Fundação Yves Rocher e um projeto pioneiro mundialmente.

Anos depois, 2010, e com uma licenciatura em biologia, Ana viajou para África para um programa de voluntariado focado no estudo dos tubarões-baleia. Acabou por voltar de lá apaixonada, mas não por tubarões, as jamantas, os “animais misteriosos” como refere, conquistaram-lhe o coração e fizeram-lhe trocar Grândola pelas águas dos Açores, para iniciar um mestrado em que os “gigantes gentis” são os protagonistas. Isto levou à criação, em 2012, do Manta Catalog Azores – uma base de dados que pretende aumentar o pouco conhecimento que há sobre estas espécies.

A investigação baseia-se, principalmente, na ciência cidadã, e com as fotografias e informações fornecidas por mergulhadores, turistas e a própria comunidade foi possível reunir “mais de dois mil mergulhos de cidadãos-cientistas, cinco mil fotografias e 58 horas de vídeo”, indicou Ana, possibilitando assim criar a primeira base de dados do mundo de foto-identificação de mobulideos nos Açores e de jamanta-chilena (Mobula tarapacana) do mundo.

Os dados recolhidos permitiram concluir que existem três diferentes espécies de jamantas nos Açores – a manta oceânica, a jamanta chilena e a jamanta gigante –; que os montes Ambrósio, perto de Santa Maria, e Princesa Alice, perto das ilhas do Faial e do Pico, são os únicos locais conhecidos em todo o mundo onde as jamantas chilenas formam grandes agregações, entre junho e outubro; e que todos os indivíduos que visitam estas águas são adultos e muitas das fêmeas estão grávidas, admitindo que “as águas açorianas sejam preponderantes para a reprodução da espécie”.

As jamantas são animais completamente inofensivos e possuem “os maiores cérebros de todos os peixes”. “São animais que vivem muito tempo, atingem a sua maturidade sexual muito tarde e reproduzem-se com pouca frequência, por isso, são bastante vulneráveis a qualquer tipo de impacto”, resume a bióloga. Dão à luz apenas uma ou duas crias a cada dois a cinco anos e o período de gestação “pode chegar até 12 meses” – o que significa que, se forem retirados adultos de uma população, o tempo de recuperação é bastante elevado. Resumindo: “É muito difícil fazer uma pesca sustentável deste tipo de animais.”

Atualmente são apenas conhecidas cerca de dez espécies e estão a enfrentar uma nova ameaça relacionada com “a crescente procura do mercado medicinal asiático pelas suas guelras”. Existe uma crença enorme envolta nos benefícios das guelras, no entanto, não há “fundamento científico que comprove”. Esta procura desenfreada já levou ao declínio da espécie em mais de 80% em algumas populações.

Para tentar reverter esta situação, em 2016, o Manta Catalog Azores participou na campanha #loveminimantas, lançada pela Manta Trust. O objetivo passava por conseguir proteção internacional para as jamantas na Convenção sobre o Comércio Internacional de Fauna e da Flora Selvagem Ameaçadas de Extinção – CITES. E “Graças ao esforço conjunto de várias ONG e indivíduos extremamente dedicados”, as espécies passaram a estar listadas no Anexo II da CITES.

Após sete anos de criação do projeto, foi a vez de ele ser reconhecido e distinguido com o segundo lugar da décima edição do prémio Terre de Femmes. Para a bióloga, este prémio permitiu que o projeto ganhasse mais credibilidade e visibilidade junto do público. A longo prazo, a bióloga ambiciona a reprodutibilidade do projeto “Este modelo de recolha de dados – foto identificação, é facilmente aplicável noutros locais do mundo onde esta espécie – jamanta chilena, seja avistada. Contudo também é necessário aumentar a base de dados açoriana e “compreender a importância dos locais de agregação dos Açores”.

Além disto, o Manta Catalog Azores também faz ações de sensibilização em escolas da região, de forma a consciencializar os mais jovens para a importância dos animais e da sua preservação. Futuramente, Ana, quer alargar o campo de ação e “desenvolver iniciativas de educação com entidades locais e nacionais para promover a investigação e conservação de jamantas, bem como o turismo sustentável”.

Atualmente Ana Filipa Sobral encontra-se a trabalhar no seu doutoramento, na Universidade dos Açores, num projeto que envolve a genética dos tubarões e raias dos açores, com uma bolsa do Fundo Regional para a Ciência e Tecnologia.