Portugal tem a maior pegada alimentar de todo o Mediterrâneo – Lisboa Green Capital 2020
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Portugal tem a maior pegada alimentar de todo o Mediterrâneo

Segundo um estudo divulgado hoje, se todas as pessoas no mundo consumissem como os portugueses, precisaríamos de 2,3 planetas Terra.

Num estudo divulgado hoje e levado a cabo pela Universidade de Aveiro, ficamos a saber que Portugal importa 73% dos alimentos, tornando-o no país mediterrânico com a maior pegada alimentar per capita. “A alimentação pesa 30% na pegada ecológica dos portugueses, mais do que os transportes ou o consumo de energia, percentagem que faz de Portugal o país mediterrânico com a maior pegada alimentar per capita”, referem os investigadores.

Segundo o documento a pegada ecológica nacional, por habitante, é bastante superior à biocapacidade do país e até do próprio planeta. “Significa que, se todas as pessoas no mundo consumissem como os portugueses, precisaríamos de 2,3 planetas Terra” revela o estudo, acrescentando ainda que 20% do consumo refere-se aos transportes e 10% à habitação.

“A pegada alimentar avalia em hectares globais (gha) a quantidade de recursos naturais que necessitamos para produzir o que comemos num ano. Sabendo que o país tem anualmente um ‘orçamento natural’ de 1,28 gha por habitante [valor de 2016], percebemos que só para nos alimentarmos ‘gastamos’ 1,08gha, ou seja, 84% desse orçamento”, explica Sara Moreno Pires – professora do Departamento de Ciências Sociais, Políticas e do Território da UA.

De acordo com a investigadora, a maior parte da biocapacidade essencial para a alimentação dos portugueses é oriunda de outros países como a França, Ucrânia, Espanha, China e Senegal, o que se traduz tanto numa pressão imensa como numa dependência para com esses ecossistemas. “Portugal é, por esses motivos, o pior país de 15 países do Mediterrâneo no que diz respeito à pegada alimentar”, acautela.

Portugal encontra-se em terceiro lugar no que toca ao consumo mundial de pescado, com cerca de 61,7% de quilos consumidos por pessoa em 2017, e a grande fatia (60%) da biocapacidade para produzir o pescado vem de outros países, sendo o país vizinho um dos nossos principais parceiros comerciais. “A elevada intensidade da pegada ecológica de peixes como o atum, espadarte e bacalhau e a sua força cultural na alimentação portuguesa salientam ainda mais o impacto elevado do consumo de peixe na pegada alimentar” destaca o estudo.

A investigação identifica também a dependência da biocapacidade de países estrangeiros, como França, Brasil, Espanha ou China, para produzir recursos alimentares, de modo a saciar a procura dos portugueses. “Pão e cereais”, “açúcar, mel, doces e chocolate” ou “gorduras alimentares” são as categorias mais dependentes, correspondendo a 90% dos hectares globais necessários à sua produção, na primeira categoria, 80% de importação na segunda e 73% na terceira.

O estudo aponta também a dependência de países como África Ocidental e Senegal no peixe, Uruguai na carne, Estados Unidos da América no leite e produtos lácteos, China nos frutos e vegetais, Argentina, Brasil e Canadá nas gorduras alimentares ou frutos.

O estudo intitulado Transição alimentar sustentável em Portugal: uma avaliação da pegada das escolhas alimentares e das lacunas nas políticas de alimentação nacionais e locais, é assinado por cientistas da Universidade de Aveiro e da Global Footprint Network.