ONE,O Mar Como Nunca o Sentiu – Lisboa Green Capital 2020
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ONE,O Mar Como Nunca o Sentiu

Uns dias antes do início da Exposição ONE, o Mar como nunca o sentiu, fomos conhecer melhor Maya de Almeida Araújo, a artista por detrás desta experiência imersiva.

A conversa decorreu numa pequena sala no Oceanário – o primeiro local em solo português que vê a sua obra exposta. A artista explica-nos que nunca tinha pensado neste local para apresentar um trabalho e que, quando o CEO do Oceanário – João Falcato lhe telefonou a dizer que tinha visto o seu trabalho e que queria colaborar com ela, ficou reticente pois não é apologista de animais em cativeiro. Depois de uma volta pelo Oceanário com João Falcato, onde este lhe explicou que animais em cativeiro era algo do passado, que o futuro passava por obras como esta onde a educação das pessoas é a filosofia principal, Maya ficou rendida e resolveu aceitar o convite.

Ficamos a conhecer um pouco mais do seu percurso, Maya contou-nos que a fotografia começou como hobby, tendo-se licenciado em Biologia, com especialização em medicina tropical. Em 2012 teve a sua primeira exposição no centro de Londres – cidade onde vive desde os 17 anos.  A paixão pela água e pelo mar vem desde pequena, com 3 anos já mergulhava na piscina de casa e praticava apneia durante 3 ou 4 minutos. No entanto, a paixão pela fotografia só surgiu uns anos depois, quando um namorado, ao ver o quanto ela gostava do mar lhe sugeriu pegar numa máquina fotográfica e transportar a sua paixão pelo mar para a fotografia.  Ai fez-se o click e o que começou como hobby tornou-se numa paixão. A artista começou a fotografar a água, a forma, a luz. A sede de aprender mais e melhor era tanta que, cedo percebeu que para todas as ideias que lhe assaltavam a cabeça, o espírito, serem postas em prática não bastava tirar fotos, tinha de saber mais e mais. Sendo assim, Maya foi para a Suíça ter com os melhores fabricantes de luz e tentou perceber como é que se trabalhava com ela, depois disto, bateu à porta do fotógrafo que mais admirava – Tim Flach, e disse-lhe que queria aprender com ele, a sua tenacidade foi recompensada e ele aceitou o pedido.

Ficamos a saber que é ao seu background como bailarina que Maya vai buscar as suas inspirações, esta instalação, por exemplo, é toda sobre movimento. Este passado como bailarina ajuda-a a entender o movimento e a conceber as coreografias utilizadas pelos modelos nos seus trabalhos.

Para quem passa tantas horas no mar, histórias memoráveis não irão faltar, como a história dos atuns. No início da época de filmagens, a artista tinha ouvido falar de uma “mancha” composta por atuns, baleias e tubarões, todos eles à caça no meio do mar. Como estavam no início da época, Maya não quis tirar o foco da equipa do seu trabalho para a colocar à procura de uma mancha, que podia até não existir. Chegada ao final da época, mandou toda a equipa e o material para casa e ficou com a sua produtora a planear a próxima fase, até que a história da mancha volta a ser falada. Pelos vistos continuava a existir e era uma coisa fora de série. Era uma oportunidade a não perder, por mais que lhe dissessem que era uma loucura, que estava exausta de tantos meses de filmagem, que não tinha material nem cameraman. Não desistiu! Pediu à produtora para arranjar um barco que a levasse lá, mandou vir um cameraman de Londres e foi à procura da mancha. E foi incrível, a mancha era realmente fantástica, os peixes reagiram de forma incrível à sua presença, fazendo círculos à sua volta e tudo correu bem. Até que acontece algo extremamente irritante, segundo Maya, no exato momento em que o cameraman sai da água, uma baleia passa junto dela, algo que não é usual acontecer com estes animais, e não havia nada para capturar aquele momento. Ficou só a sensação de se ter vivenciado um momento mágico.

Para a artista faz sentido abordar este tema, este existencialismo do homem com o mar, pois desde sempre que sente esta ligação. Para ela, o mar é feminino, é a mãe de quem se faz parte, que nos deu vida e para a qual temos a responsabilidade de a proteger. É uma maneira mais poética de contar a história, bem mais bonita do que nos ficarmos apenas por “é um meio de transporte, é onde vamos pescar e, de vez em quando, ele está maldisposto”. É o local onde deixamos a “doença” das tecnologias a estimulação em demasia, é o momento em que que nos despimos de preconceitos, de pressão social, de ideias preconcebidas e voltamos a ser nós próprios, aqui não há egos, aqui somos simplesmente nós, a nossa essência e a natureza.

“Num mundo ideal, gostava que toda a gente reconhecesse qualquer coisa deles próprios lá dentro e que sentisse uma intimidade com a obra que os faça olhar para o mar de uma forma diferente.” É assim que Maya de Almeida Araújo nos convida a visitar esta instalação que mostra o mar como nunca se viu, como nunca se sentiu.