Museu de Arte Antiga: um itinerário pela iconografia botânica – Lisboa Green Capital 2020
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Museu de Arte Antiga: um itinerário pela iconografia botânica

Foi hoje apresentado, no Museu Nacional de Arte Antiga – MNAA, o livro que comenta o Itinerário pela iconografia botânica do acervo do museu.

Espalhado pelos três pisos do museu, este itinerário que identifica cerca de 100 espécies vegetais em 30 obras de pintura, tapeçaria ou cerâmica, pretende voltar a unir a botânica com a realidade museológica. Afastamento este que se deu há uns anos, mas que faz todo o sentido em ser retomado pois, como nos diz o subdiretor do museu, Anísio Franco “vem-se a descobrir, através deste itinerário da iconografia botânica, que na verdade a botânica, particularmente as flores, as frutas, estão presentes desde sempre na iconografia da pintura, quer na pintura portuguesa quer na pintura estrangeira.” Acrescentando ainda que é uma prática que remota a tempos antigos “Desde o tempo do Lavoisier que se fazem estas aproximações e identificações na pintura, na escultura e nas artes em geral”.

O percurso que contempla obras como a tapeçaria “Hércules Capturando Cérebro”, de 1560-1561, “A Virgem, o Menino e os Anjos” de Gregório Lopes, 1536-1539, ou “Naturezas-mortas” de Josefa de Óbidos, 1660-1670, é um percurso que tanto pode ser feito de guia na mão ou simplesmente indo à descoberta, pois durante todo o circuito pelo museu existem tabelas desenvolvidas e explicativas da identificação de algumas plantas e frutas nas pinturas.

Na investigação que contou com a orientação da botânica Sandra Mesquita e da técnica do serviço de Educação do MNAA Marta Carvalho, foram feitas descobertas muito interessante. Destacando-se as cenouras brancas nas “Naturezas Mortas” do Peneda (a cenoura cor de laranja tão conhecida por nós é uma invenção dos holandeses do século XVII) ou no “Retábulo de Almeirim” (uma obra do Mestre da Lourinhã datada de 1515), a flor oferecida pelo anjo à Virgem e associada à pureza, é um lírio amarelo dos montes – uma espécie que se dá bastante bem no nosso país, ao contrário do habitual lírio da Alemanha e que, segundo Anísio Franco foi “uma novidade até para nós que estudamos essa pintura há tantos anos”.

Assim, o que começou com uma simples conversa tornou-se nesta ideia incrível: um roteiro que pretende levar-nos a “reparar num detalhe, que é uma flor ou uma planta, saber o seu significado” e isso pode-nos dar “outro olhar para a forma como vemos o quadro e é isto que se pretende” refere o vereador do Ambiente, Clima e Energia e Estrutura Verde – José Sá Fernandes.

É uma viagem pela arte do século XV-XVII que vale a pena fazer, aqui surgem as maçãs – fruto da árvore do conhecimento, as uvas – uma alusão ao vinho eucarístico, os morangos – ligados à ideia do paraíso, as tamareiras – relacionadas com a eternidade, as violentas – símbolo da humildade, ou rosas e açucenas – representações da inocência da Virgem.

Neste “Itinerário pela Iconografia Botânica” é incluído ainda “Um Vaso Esculpido com Flores”, de Jean-Baptist Bosscheart (1713), uma peça recentemente restaurada e que se juntou ao seu par na escadaria do MNAA. É uma imensidão de dálias, rosas, malvas, cravos, tulipas, flores de macieira, miosótis, uma abundância impossível no “mundo real”, mas que no mundo da pintura é possível de mostrar.

Ficou lançado (e aceite) o repto para que depois da botânica seja feito um itinerário com animais e que, segundo o vereador, conta ainda com um pormenor acrescido “temos os animais que não existem, os animais fantasmagóricos e que, portanto, podemos dar aqui um acrescento, é mais um desafio”.