Mudanças globais e doenças emergentes – Lisboa Green Capital 2020
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Mudanças globais e doenças emergentes

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Inserida no ciclo de Conferência IEAAM “Sustentabilidade do Homem no Planeta Terra que Magalhães circum-navegou”, parte III desafios para um futuro sustentável, a Academia das Ciências trouxe-nos, mais uma vez, uma conversa em formato online cheia de conhecimento e o tema não podia ser mais atual “Mudanças globais e doenças emergentes”.

Jorge Atouguia foi o convidado desta tarde, especialista em doenças infecciosas e em medicina tropical e com um doutoramento na área, foi professor do Instituto de Higiene e Medicina Tropical, diretor da Unidade de Clínica das Doenças Tropicais da mesma instituição, investigador, consultor na área da Doença do Sono para a Organização Mundial de Saúde (OMS) e atualmente é diretor (clínico) na Clínica de Medicina Tropical e do Viajante e consultor em Doenças Infecciosas e Tropicais no Hospital CUF Descobertas.

Devido aos tempos conturbados em que nos encontramos o tema sofreu uma adaptação para se associar com os conceitos das pandemias, das pandemias passadas, atuais e futuras – Doenças Emergentes e Pandemias Passado e Futuro.

Num estudo realizado no final do ano passado pelos economistas do The World Economic Forum intitulado The Global Risks Report 2020, foram estabelecidos vários tipos de risco como os económicos, ambientais ou sociais (aqui estão incluídas as doenças infecciosas) para este ano. No relatório foi feita uma associação de todas estas variáveis de forma a perceber onde é que se encontrava o problema central e este encontrava-se nas alterações climáticas, havendo mesmo uma relação direta com os extremos climáticos, as doenças infecciosas, as crises alimentares e principalmente a falta de água. 

Top 10 de principais riscos em termos de probabilidade

  1. Condições meteorológicas extremas
  2. Falha na ação climática
  3. Desastres naturais
  4. Perda de biodiversidade
  5. Desastres ambientais causados pelo Homem
  6. Fraude ou roubo de dados
  7. Ataques cibernéticos
  8. Crises de água
  9. Falha na governação global
  10. Bolhas de ativos

Top 10 de principais riscos em termos de impacto

  1. Falha na ação climática
  2. Armas de destruição massiva
  3. Perda de biodiversidade
  4. Condições meteorológicas extremas
  5. Crises de água
  6. Discriminação da infraestrutura de informação
  7. Desastres naturais
  8. Ataques cibernéticos
  9. Desastres ambientais causados pelo Homem
  10. Doenças infecciosas

Um dos primeiros conceitos que temos de compreender é o de doenças infecciosas emergentes, desta forma, segundo Stephen Morse (a primeira pessoa a aparecer com esta ideia do que é uma doença emergente) em 1995 “doenças infecciosas ‘emergentes’ podem ser definidas como infeções que aparecem de novo numa população ou sendo já conhecidas aumentam em incidência ou em área geográfica”. 

Esta definição de Morse foi complementada em 2005 pela OMS que definiu como “uma doença completamente nova, ou uma doença antiga, ocorrendo em novos lugares e novas pessoas, com novas apresentações clínicas e/ou novas resistências aos tratamentos disponíveis”. A tuberculose é o exemplo das novas resistências.

Sequência para o controlo

Quando queremos controlar uma doença há uma sequência de controlo que é necessária seguir:

  • Alerta – para uma circunstância nova que possa surgir;
  • Informação – tentar ter o máximo de informação possível para evitar que ocorram mais casos;
  • Caracterização – A partir do momento que há informação tentar, o mais rapidamente possível, caracterizar o agente infeccioso para perceber se já existia no nosso banco biológico;
  • Decisão – depois de termos estes dados temos de decidir. Esta decisão está dependente do agente infeccioso. Quando mais rápido se tiver a caracterização mais facilmente se podem tomar decisões;
  • Ação; 
  • Alerta – a partir do momento em que a ação é tomada e que se procede ao controlo da doença temos de voltar a estar em alerta, voltando desta forma ao início da sequência. 

“Isto tudo está a passar-se em relação à nossa atual pandemia por covid-19. No entanto há fases desta sequência que estão ainda bastante baralhadas, uma delas é a de caracterização. Ainda não há uma caracterização completa de todo o processo infeccioso provocado pelo SARS COV 2 e, portanto, é difícil ainda obter ações que possam resultar num controlo da situação” refere o especialista.

Segundo Jorge Atouguia “O que vai provocar o aparecimento de novas doenças tem muito a ver com características sociais, culturais, económicas e até do ponto vista climático”, isto é, as grandes alterações climáticas vão fazer com que existam grandes modificações do ponto de vista do contacto do Homem com outros riscos, nomeadamente com o risco de animais infetados com agentes que possam passar desse animal para o Homem – como é o caso da covid-19. O especialista reforça ainda que “quanto maior for a diferença entre as espécies maior a violência do agente infeccioso”. 

Epidemia ou Pandemia? 

A definição de pandemia ainda está pouco caracterizada. Segundo a OMS é “a disseminação de uma nova doença a nível mundial”.

Por sua vez, o CDC – Centro para Controlo de Doenças e Prevenção dos Estados Unidos da América – define pandemia como uma epidemia que se espalha por uma série de países ou continentes, normalmente afetando um grande número de pessoas. 

Enquanto epidemia é uma subida, por vezes súbita, do número de casos de uma doença acima de aquilo que é normalmente expectável para a população daquela área.

Neste momento, devido ao número de mortes já ocorridas, a covid-19 encontra-se nas 10 pandemias mais mortíferas da história.

Pandemias do passado

A peste negra no século XIV, a mais mortífera das pandemias, demorou três anos a chegar à Europa enquanto que, por exemplo, o Sars (1) demorou 8 semanas a começar e a acabar. 

Qual foi então a grande diferença? “O avião, é o grande vetor das doenças infecciosas”, afirma o especialista.

Desta forma, a peste negra teve de sair do continente asiático, entrando pela Europa a partir de Bordeux e vindo por via terrestre para as grandes cidades.

Já nesta altura máscaras e isolamentos eram algo praticável, correspondendo às indicações que nós hoje devemos adotar como o distanciamento e a utilização de máscara.

Gripe Pneumónica em Portugal

“São os vírus que são o principal risco do ponto de vista de uma pandemia (…) claramente que neste século é a gripe pneumónica ou gripe espanhola, com 50 milhões, há quem diga que foram 100 milhões, que representa o maior peso da mortalidade”, referencia o especialista.

A gripe pneumónica, 1918-1919, entrou na Europa, em França, provavelmente, a partir dos missionários norte americanos, sendo trazida para Portugal através das nossas tropas. No início a situação foi controlada, mas rapidamente deteriorou-se.

Origem – a pandemia chega a Portugal em maio a partir da fronteira espanhola. O primeiro foco registou-se nos concelhos fronteiriços de Arronches, Elvas e Vila Viçosa e surgiu com o regresso a casa dos trabalhadores rurais que tinham estado a trabalhar na Estremadura espanhola. As grandes peregrinações na Península Ibérica (Fátima e Santiago de Compostela), a facilidade das viagens entre Porto, Lisboa e Madrid, as deslocações para as zonas de veraneio e a migração dos trabalhadores agrícolas contribuíram para uma rápida propagação da doença.

Evolução – a crise pandémica desenvolveu-se em três vagas: numa etapa inicial, entre abril e agosto de 1918, os seus efeitos foram contidos; entre setembro de 1918 e janeiro de 1919 os seus efeitos foram devastadores, registando-se uma elevadíssima taxa de mortalidade; por fim, entre fevereiro e maio de 1919, assistiu-se ao recuo significativo do número de casos.

  • Outono de 1918, jornal Tempo “é gravíssima a situação do país. É raro o lar onde a morte não tenha batido ou que a doença não tenha visitado. Mobilizaram-se todos os médicos. E, como não chegassem, recorreu-se aos quintanistas e mesmo aos quartanistas de medicina”.

  • Só no início de outubro, a Direção Geral de Saúde (DGS) divulga as primeiras medidas profiláticas: os médicos eram obrigados a comunicar à DGS todos os casos diagnosticados; os movimentos migratórios passaram a ser controlados; improvisaram-se hospitais em escolas e outras instituições para isolar os doentes; o abastecimento das farmácias foi reforçado; todos os médicos (incluindo reformados) foram mobilizados para esta nova guerra.

  • Não for ordenado qualquer cerco sanitário (como tinha acontecido no Porto em 1899) para conter a doença. Uma decisão criticada por vários médicos. Foram encerradas todas as escolas particulares do ensino primário e secundário. No dia 7 desse mês o higienista Ricardo Jorge é nomeado Comissario Contra a Gripe e uma das suas primeiras medidas foi a de proibição de visitas nos hospitais e a abertura do novo ano escolar.

Em dezembro de 2018 há uma avaliação por parte do Nuclear Threat Initiative do que poderia ser uma pandemia em 2018, 100 anos depois da gripe pneumónica, e o que está lá descrito é “basicamente aquilo que estamos a viver neste momento”, diz-nos Jorge Atouguia, ou seja:

  • Que será uma doença zoonótica – um agente infeccioso que virá de um animal;
  • Será transmitida pessoa a pessoa – com uma população que será 3 vezes maior à de 1918 isto levará a que a transmissão seja maior e transmitida globalmente. As viagens farão com que se espalhe rapidamente;
  • Tratamento – as estruturas globais não serão adequadas apesar da evolução da medicina.

Sindemia – um novo conceito 

Sindemia é a interação mutuamente agravante entre problemas de saúde das populações no seu contexto social e económico. 

Quando a “prevenção da doença tem a ver com comportamentos das pessoas, quando, muitas vezes, os locais onde existe maior transmissão da doença são aqueles onde estão as pessoas com menos possibilidades económicas, culturais, para poder apreender informação ou tomar decisões com base nas recomendações ou informações” leva ao “aparecimento desta nova definição de pandemia, sindemia, a pandemia não é uma doença só, é um conjunto de doenças, entre as quais as doenças sociais e económicas das populações” afirma o professor. Este conceito foi introduzido por Merrill Singer em 2009 no livro “Introduction to Syndemics”.

O que fazer até à próxima pandemia? 

Apesar de ainda estarmos numa, temos de nos manter em alerta para uma próxima, aprendendo com as pandemias anteriores. 

  • Alerta;
  • Prever onde, quando e com que agente poderá surgir a próxima pandemia, isto através de surtos a decorrer;
  • Na previsão ser pró-ativo: com base no agente iniciar procedimentos biológicos, fisiopatológicos, clínicos, de diagnóstico e de possíveis intervenções terapêuticas;
  • No acompanhamento manter contacto e informações permanentes e globais;
  • Não atrasar o alerta internacional de emergência ou reemergência de doenças infecciosas.

As epidemias ocorrem quando um agente e hospedeiros suscetíveis estão presentes em número adequado, e o agente pode ser eficazmente transportado de um reservatório para os hospedeiros suscetíveis.

De acordo com o especialista “para falar de pandemia temos de falar de epidemia. E no futuro aquilo que se pensa é que, esta epidemia que possa vir a provocar uma pandemia, poderá vir a ter um ou mais destes fatores”:

  • Um aumento recente na quantidade ou virulência do agente;
  • A recente introdução do agente num cenário onde nunca tinha estado antes;
  • Um modo de transmissão melhorado para que as pessoas mais suscetíveis sejam expostas;
  • Uma alteração na suscetibilidade da resposta do hospedeiro ao agente, e/ou
  • Fatores que aumentam a exposição do hospedeiro ou envolvem a introdução através de novas portas de entrada. 

Nota: a descrição anterior de epidemias pressupõe apenas agentes infecciosos, mas as doenças não infecciosas como a diabetes e a obesidade existem em proporção epidémicas a nível global, relembra o professor.

Reflexões sobre futuras pandemias

  • Zoonoses – deverão ser a partir do animal, e os morcegos serão sempre os principais culpados “porque são os animais que conseguem albergar uma grande quantidade de vírus que podem ser infecciosos para os humanos sem ficarem doentes”;
  • Por vírus – nesta fase, porque quando entrarmos na pandemia da resistência aos antibióticos poderá ser por bactéria(s) “a resistência aos antibióticos está a aumentar de dia para dia”;
  • Por via aérea – exemplos: HendraVírus, Arbovírus, doenças por vetores, Ébola, Marburgo não devem ser agentes de pandemias pois não são transmitidos por via aérea tornando-se mais difíceis de transmitir; relembra o investigador;
  • Manipulação genética (teorias da conspiração) – o bioterrorismo com muita pressão psicossocial no final do século passado foi substituído por outra técnica terrorista mais eficaz, mais limpa e sem risos particulares para o operador: o ciberterrorismo.

Reflexões sobre as pandemias do passado e a atual pandemia

As medidas essenciais de prevenção de uma infeção por via aérea são as mesmas.

O que mudou?

  • Os recursos técnicos e humanos;
  • A informação;
  • Os comportamentos – “esta é uma doença que depende dos comportamentos das pessoas”, reforça o investigador.

Jorge Atouguia conclui a sua apresentação a reforçar uma ideia que devia estar presente em todos nós “Esta é uma doença social em que é fundamental os métodos de prevenção da doença: a lavagem das mãos, a máscara, a desinfeção. Mas sobretudo o que está por trás da desinfeção é transmitir a necessidade do conceito social e cívico da prevenção”.