Já se vê mais bicicletas pelas ruas de Lisboa, mas ainda são metade dos ciclistas habituais – Lisboa Green Capital 2020
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Já se vê mais bicicletas pelas ruas de Lisboa, mas ainda são metade dos ciclistas habituais

Com o início do estado de emergência, o número de bicicletas em circulação nas ruas de Lisboa sofreu um valente decréscimo, facilmente se atingiu um terço do que era usual por esta altura. Nas semanas que se seguiram os números continuaram a descer até, praticamente, chegarem ao zero. Quase dois meses depois, e com os primeiros raios de sol e o desconfinamento, as bicicletas começaram a aparecer novamente, mas segundo os dados do Eco-Counter – um contador de bicicletas instalado na Avenida Duque d’Ávila, Saldanha, são metade do que se via antes da pandemia, passando de 600 bicicletas por dia em cada sentido das ciclovias do Saldanha para 300 (em março eram cerca de 200 e abril menos de 100).

“É natural que o volume diário não seja o mesmo do que o do pré-confinamento. Muitas deslocações que eram realizadas para ir trabalhar deixaram de ser feitas”, explica Rosa Félix, investigadora do U-Shift, laboratório de investigação em mobilidade integrado no Instituto Superior Técnico (IST).

“No entanto, surgiram novas deslocações de lazer, tais como os ‘passeios higiénicos’, que provavelmente não eram realizadas anteriormente. Podem também estar a ser transferidas viagens que seriam feitas em transportes públicos, que as pessoas estão a evitar usar.” 
Aliás, uma das coisas que cresceu, nestes tempos pós estado de emergência, foi a procura de bicicletas, principalmente em segunda mão “cresceu bastante nas últimas semanas, de acordo com os rankings nas pesquisas no OLX”, salienta Rosa.

Além do aumento da circulação, o Eco-Counter também nos mostra que é ao fim de semana que se vê o maior número de bicicletas em circulação, algo que não acontecia nos primeiros meses do ano.
“Ao contrário do período pré-confinamento, a utilização é agora maior no fim de semana do que nos dias de semana, o que para uma via central na cidade de Lisboa como é a Duque D’Ávila, onde o contador está instalado, não seria de esperar. Isto indica que há uma procura por passeios e lazer em bicicleta ao fim de semana. Quem está em teletrabalho tem menos possibilidades de realizar viagens de bicicleta durante a semana e aproveita o fim de semana para sair de casa”, indica a investigadora.

Agora é agarrar este momento, em que as pessoas começam a andar de bicicleta por lazer, e transpô-lo para a utilização como meio de transporte para o trabalho.
“Pode deixar efeitos muito positivos, desde que esse hábito seja incentivado e mantido. É normal registarem-se picos de utilização da bicicleta em várias cidades do mundo no mês de setembro. E isso associa-se ao facto de que muita gente teve oportunidade de usar a bicicleta durante as férias de verão e quer continuar a fazê-lo depois no dia a dia”, refere a cientista.

“Se a utilização da bicicleta for incentivada no pós-desconfinamento, essas pessoas poderão passar a ser ciclistas habituais. Para isso é preciso tomar medidas de incentivo já, antes que voltem para os seus modos de transporte anteriores, quando voltar a normalidade.”

Rosa refere ainda que este é o momento ideal, tal como acontece noutras cidades europeias, para investir na utilização da bicicleta,
“Devem ser garantidas condições de segurança, como a redução de velocidades das cidades e a criação de ciclovias numa lógica de rede, garantir que as pessoas sabem andar de bicicleta, tenham a destreza e conheçam as regras de condução em meio urbano, além de garantir que tenham acesso a uma bicicleta partilhada ou bicicleta própria e a um local para a guardar durante a noite e nos locais de trabalho ou estudo”, menciona Rosa Félix.

“É preciso também garantir que a bicicleta possa ser levada nos transportes públicos. A cada dia que passa, o automóvel volta a ocupar o seu lugar, e perde-se a oportunidade de ocupar esse espaço para o peão e bicicleta.”