Encontro Nacional sobre Investigação em Alterações Climáticas – Lisboa Green Capital 2020
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Encontro Nacional sobre Investigação em Alterações Climáticas

O Encontro Nacional sobre Investigação em Alterações Climáticas reuniu, pela primeira vez, unidades de investigação nacionais para apresentarem os seus resultados de investigações sobre alterações climáticas. O evento inédito decorreu no Grande Auditório da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa nos dias 17 e 18 de fevereiro.

O encontro, realizado no âmbito da Lisboa Capital Verde Europeia 2020, decorreu à volta de mesas redondas e de apresentações de resultados de investigação em tópicos tão variados como os oceanos, a energia, as cidades, a agricultura e a biodiversidade, a saúde e a economia e a política, sempre no contexto das alterações climáticas.

O primeiro dia arrancou pouco depois das nove da manhã com uma sessão de boas-vindas com Luís Carriço, diretor de Ciências da Universidade de Lisboa, José Sá Fernandes, Vereador do Ambiente, Clima e Energia e Estrutura Verde da Câmara Municipal de Lisboa, Inês Santos Costa, Secretária de Estado do Ambiente, e Manuel Heitor, Ministro da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior.

A Secretária de Estado do Ambiente abriu o seu discurso com o preâmbulo de que havia sido investigadora durante oito anos, carreira que abandonou por se sentir insatisfeita com o seu papel: “Não porque o tema não fosse interessante, muito pelo contrário, mas porque frequentemente me questionei sobre o que se espera de uma investigação científica.” No seu discurso de arranque do encontro, a ex-investigadora em Ecologia Industrial lançou para a plateia de cientistas um repto para haver mais comunicação com a sociedade fora da academia: “Eu fazia parte daquele grupo que achava que tínhamos de adaptar a nossa comunicação aos empresários, aos economistas ou aos políticos, se queríamos de facto fazer a diferença. Confesso que era para mim estranho que esse conhecimento ficasse apenas entre as paredes de uma conferência ou nas páginas de um jornal científico.”

Por sua vez, o Ministro da Ciência chamou a atenção para “a necessidade crítica de novo conhecimento”, assim como de inovação institucional e de novos métodos de observação. Manuel Heitor também chamou a atenção para a necessidade de debates como este serem abertos à população, tal como a Secretária de Estado do Ambiente havia frisado: “Temos todos de ter a humildade de saber aquilo que sabemos e aquilo que não sabemos, mas sobretudo de garantir sempre mais e melhor conhecimento mas também a sua difusão.” O Ministro da Ciência concluiu com ênfase nesse mesmo ponto: “Há, por isso, a necessidade intrínseca que estes debates não se fechem mas que sejam abertos a todos, aos cidadãos de uma forma geral e certamente aqueles com capacidades e responsabilidades de decisão, mas, de uma forma geral, ao esforço de mobilizarmos todos.”

O Vereador do Ambiente da Câmara Municipal de Lisboa deu as boas-vindas a este que é um dos eventos-chave da Lisboa Capital Verde Europeia 2020: “Um dos objetivos da Lisboa Capital Verde Europeia é, para além de permitirmos a informação, espalharmos a melhor informação possível a todos, pelos melhores meios possíveis, a toda a gente. Outra é permitir a participação de todos. E outra é a valorização: do que fizemos e do que os outros fazem.” Por estas três razões é que José Sá Fernandes considera este Encontro Nacional da maior importância: “Se nós queremos melhor informar, melhor participar e melhor valorizar, nada melhor do que debater. É isso que pretendemos com este tipo de conferências e este primeiro grande encontro de centro de investigação portugueses visa exatamente isso: debater, trocar ideias, perceber e aprender aquilo que temos de fazer.”

Precisamente por estar ciente da importância da apresentação de resultados científicos, o Vereador prometeu marcar presença nos dois dias da conferência: “Vou fazer questão de neste ano da Lisboa Capital Verde estar presente em todas as conferências do princípio até ao fim. Para quê? Precisamente para isso: para poder aprender, para poder perceber como é que posso decidir melhor aquilo que se faz em Lisboa ou no país.”

A manhã do primeiro dia deste encontro nacional ficou marcada por uma mesa-ronda sobre alterações climáticas, em que se falou nomeadamente de aerossóis e de modelação climática, e por uma segunda sobre os oceanos. Da parte da tarde, os debates geraram discussões sobre os recursos hídricos e a transição energética.

No final de cada sessão de apresentação, deu-se início a um debate aberto a toda a sala, o que contribuiu para importantes discussões sobre os maiores desafios que irão surgir nas próximas décadas e quais as abordagens para os enfrentar.

O segundo e último dia do Encontro Nacional sobre Investigação em Alterações Climáticas começou pelas nove horas da manhã com uma mesa-redonda dedicada às cidades e ao uso dos solos. Depois de mais um coffee-break, a conversa direcionou-se para a agricultura, a floresta e a biodiversidade, onde se ouviu falar sobre as alterações na parte viva do nosso planeta, ou seja, sobre as relações entre os animais e o impacto que as alterações climáticas têm nessas relações (em 2019 havia 30 mil espécies em risco de extinção) e foi também apresentada uma investigação sobre a diversidade genética e como se pode usá-la no combate às alterações climáticas.

Da parte da tarde, os debates viraram-se para a saúde, a economia e a política. A mesa-redonda dedicada à saúde e economia terminou com um gancho para o debate final, proferido pelo professor Manuel Coelho do ISEG: “Estamos perante um problema que necessita de ação, enquanto individuais, investigadores e políticos.”

“Decisão política no contexto das Alterações Climáticas” voltou a trazer o Vereador do Ambiente da Câmara Municipal de Lisboa ao palco do Grande Auditório da FCUL e ao seu lado estiveram Filipe Duarte Santos (cE3c-Ciências ULisboa), Helena Freitas (CEF-U. Coimbra), Helena Pereira (FCT) e Júlia Seixas (CENSE-UNL). Neste painel, o Vereador apelou ao papel da ciência e à importância de dar voz aos cientistas: ”Tenho procurado conhecimento ao longo da minha vida. As cheias de 67 foram a minha primeira experiência com ‘variabilidade climática’, porque ainda não se falava de alterações climáticas, mas a minha reação foi: ‘Como é que isto pode acontecer?’”. Foi este evento, que marcou a sua infância, que suscitou em José Sá Fernandes a sua consciência ambiental e, desde aí, tem sempre procurado perceber o que pode fazer através do conhecimento. “Temos de aproveitar este conhecimento para fazer o bem comum”, foi o repto lançado pelo Vereador do Ambiente. “Temos de ouvir a ciência, decidir que caminho seguir e fazer escolhas. E as escolhas têm sempre de se basear em factos científicos.”

Por fim, a cerimónia de encerramento ficou a cargo do Ministro do Mar, Ricardo Serrão Santos, que dedicou grande parte do seu discurso final aos oceanos: “O problema dos oceanos vai muito para além da sobre pesca, da poluição e dos plásticos. Eles hoje estão sujeitos à acidificação, ao aumento da temperatura média, à diminuição dos níveis de oxigénio e correntes marinhas quentes, com consequências muito grandes na questão de perda de biodiversidade. Os peixes que hoje acedemos nas nossas costas vão ser diferentes daqui a uns anos – estamos num processo de tropicalização.” Tal como na mesa-ronda que antecedeu a sua intervenção, o Ministro do Mar deixou um repto para que os decisores políticos ouçam mais os cientistas: “O que é impressionante é que a evidência científica não é nova mas tem sido limitada na sua decisão na política – os cientistas há já muitos anos alertaram os políticos para a necessidade de avançar com novas políticas de combate às alterações climáticas.”

No final, Ricardo Serrão Santos concluiu com uma nota de esperança: “A orientação para uma boa governação exige uma sociedade informada. Portugal tem, no seu programa de governo, uma ação climática ambiciosa que constituiu um dos quatro eixos transversais. Pretende-se ter, ainda que como país pequeno, um papel importante na política global e fazer face a este imenso desafio que são as alterações climáticas.”