Emissões globais de metano atingiram valores nunca antes registados – Lisboa Green Capital 2020
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Emissões globais de metano atingiram valores nunca antes registados

Segundo dois artigos publicados esta terça-feira e que analisaram as emissões de metano entre 2000 e 2017 concluiu-se que, em 2017, a atmosfera do nosso planeta absorveu 600 milhões de toneladas deste gás. Apenas a Europa se destaca pela positiva.

Os dois artigos divulgados nas publicações científicas Environmental Research Letteres e Earth System Science Data pelos investigadores do Global Carbon Projet, uma iniciativa liderada por um Cientista da Universidade de Stanford – Rob Jackson, alertam-nos para os valores nunca antes registados, e que não foram minimizados pela pandemia covid-19.

Entre 2000 e 2017 as emissões de metano subiram para valores que, segundo os cientistas, provocam um aquecimento de três a quatro graus celsius antes do final do século. Este limiar de temperatura tem sido apontado pelos cientistas como um gatilho para o aumento de fenómenos como desastres naturais onde se incluem incêndios, secas ou inundações e perturbações sociais como a fome e a migração em massa.

A atmosfera terrestre em 2017 – o último ano em que se tem dados globais completos e disponíveis sobre este gás, absorveu 600 milhões de toneladas de gás metano. Este gás tem um efeito de estufa mais potente, em 28 vezes, do que o dióxido de carbono pois fica na nossa atmosfera por mais de 100 anos.

Segundo os cientistas, a maior fonte de emissão são as atividades humanas – mais de metade, e estas têm aumentado 9% (50 milhões de toneladas) por ano desde o início de 2000. Para termos uma ideia mais concreta do que este aumento representa em potencial de aquecimento, colocar tanto metano na atmosfera corresponde a colocar mais de 350 milhões de carros nas estradas.

Rob Jackson, professor de ciências do sistema terrestre na Universidade de Stanford, os maiores emissores de metano são a criação de gado e as fontes de combustíveis fósseis. “As emissões de gado e outros ruminantes são quase tão grandes quanto as da indústria de combustíveis fósseis para o metano”, refere o cientista citado no comunicado, acrescentando que “as pessoas brincam sobre os arrotos das vacas sem perceber o que isso realmente significa”.

De acordo com os dados disponibilizados, as emissões derivadas da agricultura foram de 227 milhões de toneladas em 2017, o que representa um incremento de quase 11% acima da média de 2000-2006. Também o metano originário da produção e utilização de combustíveis fósseis aumentou em 15%, relativamente ao mesmo período, o que representa mais 108 milhões de toneladas enviadas para a atmosfera em 2017.

Os investigadores destacam ainda que se devido à pandemia houve um decréscimo acentuado da emissão de dióxido de carbono, o mesmo não se passou com o metano, pois as casas continuaram a ser aquecidas e a agricultura continuou a crescer.

No período em analise foi visível que que as emissões de metano aumentaram de uma forma bastante notória na China, Médio Oriente, África e no Sul da Ásia e Oceânia, com a Austrália e muitas ilhas do Pacifico incluídas. Cada uma destas zonas comportou um aumento de 10 a 15 milhões de toneladas por ano. Nos Estados Unidos, o aumento foi de 4,5 milhões de toneladas por ano. 

De acordo com o investigador Rob Jackson, estes valores são derivados do aumento da produção e consumo de gás natural, que embora reduza as emissões de dióxido de carbono aumentam as emissões de metano.

O salto maior (no pior sentido) foi verificado nas regiões tropicais e as zonas polares têm desempenhado um papel menos fulcral segundo este trabalho, que conclui que não foram encontradas provas que confirmem os receios de um grande contributo do degelo do permafrost nas emissões de metano.

Por outro lado, a Europa é a exceção à regra, aqui as emissões de metano diminuíram ao longo das últimas décadas devido à redução das emissões no fabrico de produtos químicos e na adoção de uma agricultura mais eficiente.

“Políticas ambientais e melhor gestão conseguiram reduzir as emissões de aterros, adubos e outras fontes na Europa. As pessoas estão também a comer menos carne e mais aves e peixes”, constata Marielle Saunois, da Universidade de Versalhes Saint-Quentin, em França, principal autora do artigo publicado na Earth System Science Data.

Para os investigadores, a redução das emissões de metano é possível e a forma de o conseguir é já conhecida: “Precisamos de comer menos carne, reduzir as emissões associadas à criação de gado e arroz, e substituir o petróleo e o gás natural nos nossos carros e casas”, lembra Rob Jackson.