É descoberto o primeiro derramamento de metano ativo no fundo do mar da Antártida – Lisboa Green Capital 2020
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É descoberto o primeiro derramamento de metano ativo no fundo do mar da Antártida

A descoberta publicada hoje na revista académica Proceedings of the Royal Society B não traz boas notícias para o planeta. O metano – um dos gases mais eficazes no aquecimento da atmosfera, poderá começar a escapar através de derrames, conforme a crise climática provoque o aquecimento dos oceanos, a isto junta-se o facto de os micróbios que o consomem terem demorado anos a aparecer no local.

Foi identificado o primeiro derrame ativo de metano do mundo no fundo do mar da Antártida. A descoberta realizada por um grupo de investigadores da Universidade do Estado de Oregon – Estados Unidos da América, irá permitir que se adquira novas informações sobre o ciclo do metano, assim como, levar a uma melhor compreensão do papel deste gás no aquecimento do planeta. A descoberta foi publicada hoje, quarta-feira, na revista académica Proceedings of the Royal Society B, uma publicação da instituição britânica Royal Society.

Segundo o comunicado da instituição, divulgado hoje também, uma infiltração, ou derrame de metano, é o ponto onde o gás escapa de um reservatório subterrâneo e entra, desta forma, no oceano. De acordo com os cientistas não é a primeira vez que são encontrados estes fenómenos nos oceanos, mas é a primeira vez que é encontrada uma infiltração ativa na Antártida.

E isto torna-se bastante importante pois, como Andrew Thurber – ecologista marinho e professor da Universidade do Estado do Oregon explica, o metano é “o segundo gás mais eficaz no aquecimento da nossa atmosfera”, sendo muito mais potente, em 28 vezes, do que o dióxido de carbono.

Além disso, a Antártica possui “vastos reservatórios” de metano – pensa-se que tenha até 25% do metano marinho da Terra, que “provavelmente se abrirão” à medida que as camadas de gelo recuem por causa das mudanças climáticas”. “Esta é uma descoberta significativa que pode ajudar a preencher um grande buraco na nossa compreensão do ciclo do metano”, acrescenta o académico.

Esta descoberta, no mar de Ross, foi feita numa área que é estudada pelos cientistas há mais de 60 anos, contudo a infiltração só se tornou ativa em 2011. 

Um vasto “tapete microbiano”, com cerca de 70 metros de comprimento e um de largura, foi formando no fundo do mar, aproximadamente dez metros abaixo da superfície congelada do oceano. Estes “tapetes” são produzidos por bactérias e são a revelação da existência de um derrame. “Não sabemos o que causou estas infiltrações. Precisávamos de um pouco de sorte para encontrar um ativo, e conseguimos”, pode ser lido no comunicado.

Os micróbios que consomem o metano presente na água costumam manter o gás fora da atmosfera, contudo, os cientistas descobriram que os organismos presentes à volta desta infiltração são diferentes dos encontrados noutras zonas dos oceanos, o que ajudará a perceber se o metano chegará à atmosfera e contribuirá, mais ainda, para o aquecimento global.

Foi ainda descoberto que o tipo mais comum deste micróbio consumidor de metano demorou cinco anos a aparecer no local do derrame e que, mesmo assim, não o estavam a consumir na totalidade, levando a concluir que este está a ser libertado e “provavelmente está a entrar na atmosfera”, o que para o cientista “não são boas notícias”.

O docente acrescenta ainda que nunca tinham tido uma oportunidade de estudar uma infiltração aquando da sua formação – e nenhuma na Antártida – e que agora vão poder perceber se estes fenómenos funcionam de maneiras diferentes neste continente, ou se as comunidades microbianas podem demorar anos até se adaptarem.

“Os animais na Antártica são muito diferentes dos de outras partes do mundo uma vez que o continente está separado do resto do mundo há mais de 30 milhões de anos, um longo período de tempo para que a evolução aconteça”, afirma. “Isto resultou numa notável diversidade da fauna que só encontramos lá e pode contribuir também para as diferenças nos micróbios”.

É também acrescentado que é importante perceber como é que o metano se infiltra nestes ambientes para que, desta forma, os cientistas possam começar a considerar estas diferenças nos modelos de previsão das mudnças climáticas. A equipa espera conseguir voltar brevemente ao local da descoberta, de forma a monitorizar a sua evolução e realizar mais pesquisas. Contudo, é pouco provável que possam voltar em breve dado que os planos de expedição foram suspensos devido a pandemia em que se vive.

A comunidade científica tem alertado para o facto de o metano ser a nova ameaça para o aquecimento global. Já em 2008, um grupo de cientistas alertava para a libertação do gás no fundo do mar poder estar relacionado com o rápido aquecimento verificado na região do Ártico.