Biodiversidade, a vida na Terra e a segurança alimentar – Lisboa Green Capital 2020
-Notícias

Biodiversidade, a vida na Terra e a segurança alimentar

Tempo médio de leitura: 12 minutos

São 18 horas de segunda-feira o que significa encontro marcado com a Academia das Ciências. Com o título “Sustentabilidade do Homem no planeta Terra que Magalhães circum-navegou”, este ciclo chega-nos à segunda e terça-feira e aborda as mais variadas áreas da sustentabilidade.

Hoje as honras caíram sobre Augusto Manuel Correia, professor do Instituto Superior de Agronomia e que, como Maria Salomé Pais, secretária-geral da Academia das Ciências, nos diz “é um conhecedor exaustivo de conhecimento sobre os maiores locais de biodiversidade e de vida na Terra”, salva a quase redundância que fez questão de frisar.

O professor, antes de começar a sua apresentação denominada como “Biodiversidade, a vida na Terra e a segurança alimentar”, fez questão de salvaguardar que a mesma iria seguir uma “abordagem holística, pois era diferente se estivéssemos a analisar uma região especifica”.

“A biodiversidade está em perigo em 2050”

Augusto Manuel Correia inicia a sua apresentação com uma afirmação forte, dura e crua “a biodiversidade está em perigo em 2050”, uma consequência do elevado número de habitantes que a Terra irá ter dentro de 30 anos.

Depois desta afirmação a primeira pergunta que nos vem à cabeça é” ok, a nossa biodiversidade está em perigo, mas será possível mantê-la ou aumentá-la de forma a alimentar toda a humanidade em 2050”?

De acordo com os dados a resposta traz-nos uma boa e uma má notícia. Se formos otimistas vamos escolher a boa noticia primeiro que nos diz “sim, vai ser possível”. Contudo, sabemos que há uma má por ouvir e esta já nos diz que, para isso acontecer, temos de mudar os nossos comportamentos drasticamente. Neste exato momento, está nas nossas mãos garantirmos a subsistência da biodiversidade e, assim, a continuidade da nossa espécie.

Os determinantes para o sucesso vão depender da:

  • Vontade política nacional e internacional para assumir os compromissos adequados;
  • Compreensão cívica por parte dos cidadãos sobre o que está em causa;
  • Disponibilidade financeira para respeitar os compromissos;
  • Cooperação internacional desinteressada.

E neste momento onde é que estamos?

Para responder à pergunta que ecoa na nossa cabeça “e neste momento onde é que estamos?” são-nos apresentados alguns estudos recentes.

Brondizio et al., 2019 indica-nos os condutores indiretos e diretos.

Condutores indiretos:

  • Demografia e fatores socioculturais;
  • Economia e tecnologia;
  • Instituições e governo;
  • Conflitos e epidemias.

Condutores diretos:

  • O uso da terra e do mar;
  •  Exploração direta;
  • Mudanças Climáticas
  • Poluição;
  • Espécies invasivas;
  • Outras.

Todos estes condutores, independentemente de serem diretos ou indiretos, irão ter um impacto tremendo na terra, na água potável e na vida marinha, sendo caso disso os seguintes exemplos de declínio da natureza:

  • Aproximadamente 25% das espécies do mundo animal e das plantas estão em graves riscos de extinção;
  • A biomassa global de mamíferos selvagens caiu 82% (desde a pré-história). E os indicadores da abundância de vertebrados diminuíram rapidamente desde os anos 70;
  • 72% dos indicadores desenvolvidos por povos indígenas e comunidades locais mostram uma deterioração continua e agravada de elementos da natureza importantes para estes povos.

Williams et al., 2020

Este estudo mostra, essencialmente, a degradação dos ecossistemas ao longo dos séculos e de como grande parte dos habitats já foi gravemente afetada pelo homem, principalmente na Europa, América do Norte e na Ásia. No entanto, também é reforçada a ideia de que que “por enquanto, ainda existem reservas genéticas fundamentais para que possamos ter alguma vantagem comparativa”.

Os factos

De acordo com o relatório da ONU “Relatório de Recursos Mundiais – Criar um Futuro Alimentar Sustentável”, 2019 : “À medida que a população global cresce de 7 mil milhões de pessoas em 2010 para uma projeção de 9,8% mil milhões em 2050, e a renda cresce em todo o mundo em desenvolvimento, a procura global por alimentos está prestes a aumentar em mais de 50% e a procura por alimentos de origem animal em quase 70%. No entanto, hoje, centenas de milhões de pessoas continuam com fome, a agricultura já usa quase metade da terra arável do mundo, e a agricultura e a mudança relacionada do uso da terra para a agricultura geram um quarto de emissões de gases de efeito estufa”.

De acordo com as projeções (UNDESA 2017) a população irá crescer em mais 2.8 mil milhões de pessoas (relativos aos dados de 2010), e esse crescimento não será distribuído de forma homogénea. A maior demanda por alimentos irá ocorrer nas zonas que, hoje em dia, já são as mais complicadas, como a África Subsaariana, 47%, e a Ásia, 38%, “o que pode levar para um cenário de um mundo mais injusto e mais desigual”, reforça o professor.

Qual é então a importância e a relevância das relações entre a agricultura e a biodiversidade para o nosso futuro?

  • Quanto mais terra for utilizada para a agricultura, tendo em conta as necessidades de produção agrícola global, menor biodiversidade haverá;
  • A resiliência futura da produção agrícola (pragas, doenças, alteração climática) depende da manutenção de uma ampla base de diversidade genética;
  • A perda de biodiversidade acarreta perda de diversidade funcional, da qual resultam ecossistemas locais menos resilientes e menos capazes de fornecer uma diversidade de serviços e de ecossistemas em proveito do bem-estar humano.

Isto faz com que “entre a crise da biodiversidade já em curso e uma possível crise de aprovisionamento alimentar, seja requerido que os desafios em ambas as áreas (biodiversidade e alimentação) tenham respostas eficazes e articuladas”, afirma Augusto Manuel Correia.

Quais são os desafios a enfrentar até 2050? 

  • Alimentar muitas mais pessoas com alimentos mais nutricionais;
  • Assegurar que a agricultura contribua decisivamente para a redução da pobreza através de um desenvolvimento económico e social inclusivo;
  • Conseguir reduzir as emissões dos gases que contribuem para o efeito estufa;
  • Conseguir a redução das perdas de habitat naturais:
  • Contribuir para a diminuição da poluição;
  • Contribuir para a melhoria da utilização da água potável;
  • Contribuir para redução de quaisquer outros impactos ambientais nas explorações.

Quais as estratégias propostas para atingir o objetivo? 

1 – Reduzir o crescimento na procura de alimentos e/ou outros produtos agrícolas

  • Redução das perdas de alimentos e do desperdício (cerca de 1/3). Diminuindo as perdas e o desperdício, reduzirá em 12% o que falta de calorias, 27% a falta de terras e 15% a emissão de gases de efeito estufa;
  • Alteração para dietas mais saudáveis e mais sustentáveis e, por isso, mais à custa do mundo vegetal com redução do consumo de carne para 52 calorias/dia;
  • Evitar a competição entre a bioenergia e a produção de alimentos;
  • Controlo da natalidade, fomento de uma política adequada de fertilidade principalmente em África (mais educação, menor taxa de mortalidade infantil).

No que toca a perdas e desperdícios, nos países da América do Norte e da Europa, a grande parte do desperdício deve-se ao consumo em excesso, compras que são mal feitas, que não são consumidas e que acabam nos caixotes do lixo. 

No que toca a alimentação, a nível global, nem sequer chegamos perto dos 100% na Health Boundary, ou seja, em alimentos como fruta ou vegetais, mas no que toca a carne consumimos quase o triplo do necessário – 288% e o mesmo se aplica aos hidratos de carbono em que nos encontramos nos 293%.

Por sua vez, relativamente à biomassa, toda a biomassa produzida em 2000 apenas dará para 20% da energia necessária em 2050.

2 – Aumento da produção agrícola sem necessidade de recorrer a uma área agrícola para a atingir 

  • Melhorar a produtividade das pastagens e da criação de gado – A maior parte dos produtores deverá passar de extensivo a intensivo; os países devem colocar metas a serem atingidas; deve ser criado um sistema de monitoramento que permita o acompanhamento das políticas.
  • Apostar no sistema de melhoramento genético de forma a alcançar a produtividade necessária – a edição do genoma acarreta um grande potencial. Por vezes, novos genes podem fornecer o único mecanismo viável para as culturas resistirem a novas doenças. Novos genes podem também ter um papel importante no combate às alterações ambientais, tornando as culturas mais eficientes na absorção do azoto ou diminuído as emissões de metano e do óxido nitroso.
  • Melhorar o maneio do solo e da água;
  • Utilizar mais frequentemente os terrenos disponíveis – aumentar as áreas onde se fazem duas épocas de cultura por ano, reduzir os poisios existentes (apoio adequado aos serviços de investigação e de extensão);
  • Aposta na adaptação às alterações climáticas – bancos de sementes regionais, pequenos sistemas de regadio adaptados a cada região; suporte adequado de uma investigação direcionada aos problemas; aposta na definição de sistemas de produção adaptados às mudanças mais previsíveis.

3 – Proteger e restaurar os ecossistemas naturais e limitar a utilização de novas terras para a agricultura – “A eficiência será o compromisso sempre!” reforça o professor.

  • Fazer correlacionar os ganhos na produtividade com a proteção dos ecossistemas naturais;
  • Limitar o inevitável aumento de terras transformadas em agricultura às regiões onde os custos ambientais sejam mais reduzidos;
  • Proteger, o mais possível, as regiões ainda com vegetação nativa e florestar (recuperar) as terras abandonadas, as improdutivas e as que deixam de ser utilizadas para a agricultura;
  • Evitar completamente o recurso às turfeiras para a agricultura e recuperar as zonas já utilizadas para tal.

4 – Aumentar a disponibilidade do peixe 

  • Melhorar o maneio da apanha do peixe selvagem – definição do limite do peixe fresco a ser pescado e a sua partilha equitativa; políticas adequadas de supervisão e de subsídios que ajudem a melhorar esse maneio.
  • Melhoria da produtividade e da performance ambiental da aquacultura – seleção que melhore o crescimento dos peixes e a sua conservação; desenvolvimento de sucedâneos do óleo de peixe a partir de microalgas, macroalgas (infestantes marinhas) ou de óleos de sementes adequados à alimentação na aquacultura; reutilização das águas para melhor controlo da poluição; utilizar planeamento especial para rentabilizar as instalações; expandir os sistemas marinhos.

5 – Reduzir as emissões dos gases de efeito estufa provenientes da atividade agrícola 

  • Redução da fermentação entérica através de novas tecnologias;
  • Redução das emissões por vias do melhoramento do maneio dos estrumes;
  • Redução das emissões libertadas pelo estrume dos pastos;
  • Redução das emissões a partir de fertilizantes pelo aumento de eficiência na utilização de adubos azotados;
  • Redução das emissões a partir dos arrozais com base em novas tecnologias de maneio da cultura e novas variedades utilizadas

Só as emissões base da agricultura em 2050 serão iguais a 70% do total de emissões permitidas para todos os setores em 2050.

Sabemos perfeitamente que os recursos que dávamos como garantidos estão a ficar escassos, como é o caso da água potável, que a biodiversidade enfrenta uma ameaça enorme, que as alterações climáticas são cada vez mais evidentes e que uma mudança drástica e urgente é imperativa.

Se hoje em dia temos mais de 800 milhões de pessoas com fome, quando ainda há recursos suficientes para alimentar a população, então como será daqui a 30 anos com o aumento de mais de 20% da população atual? Alguma coisa tem de ser feita e a questão é “estaremos nós preparados para responder a este desafio”?