As plantas têm memória, comunicam e resolvem problemas – Lisboa Green Capital 2020
-Notícias

As plantas têm memória, comunicam e resolvem problemas

Tempo médio de leitura: 10 minutos

As plantas são inteligentes e se havia alguma dúvida relativamente a isso, Stefano Mancuso, professor associado da Universidade de Florença esclarece-as. De acordo com o investigador, as plantas resolvem problemas, memorizam, comunicam e socializam.

Foi um dos convidados do Visão Fest, a New Yorker considera-o um dos “World Changers” da década, venceu o Prémio Galileu 2018, os seus livros são best-sellers internacionais e é um dos maiores especialistas do mundo de neurobiologia vegetal.

Foi em 2005 que Stefano Mancuso começou a sua investigação sobre a Neurobiologia das Plantas, na altura algo inédito pois a grande maioria dos estudos eram feitos em animais. Em conjunto com a sua equipa tentam compreender “como é que as plantas são capazes de resolver problemas, como memorizam, como comunicam e com têm a sua vida social”, diz-nos a sua entrevista no The Guardian.

Ler os seus livros, como a Revolução das Plantas – a maior referência – é entrar num mundo vegetal maravilhoso e que até agora era praticamente desconhecido.

Para percebermos a importância que estes estudos podem ter temos de ter em conta que as plantas representam 85% da biomassa do planeta, em contraponto todos os animais da Terra em conjunto representam apenas 0,3%. De um ponto de vista quantitativo a vida neste planeta é verde, contudo, de acordo com o investigador a evolução fez crescer no Homem o que ele chama de “cegueira vegetal”.

De acordo com o professor a ideia de que somos mais inteligentes e fortes do que outras espécies, só porque temos um cérebro muito mais desenvolvido, ainda está por comprovar. A média de vida de uma espécie na Terra é de cerca de dois a cinco milhões, enquanto o Homo Sapiens viveu apenas 300 mil anos. Já fomos capazes de quase destruir o nosso meio ambiente, como podemos continuar a dizer que somos a espécie melhor ou mais avançada? Questiona Stefano Mancuso.

Stefano explica ainda que as plantas são um modelo de modernidade.
“Dos materiais à autonomia energética, da capacidade de resistência às estratégias de adaptação, desde os primórdios que as plantas fornecem as melhores soluções para a maioria dos problemas que afligem a Humanidade.” Como não conseguem movimentar-se e, consequentemente, fugir adaptam-se e encontram estratégias para resolver os problemas.

“Com o intuito de ultrapassar os problemas relacionados com a predação, as plantas evoluíram por um caminho único e insólito, desenvolvendo soluções de tal modo distintas das dos animais. São organismos tão distintos que podiam ser extraterrestres: os animais deslocam-se, as plantas estão imóveis; os animais são velozes, as plantas são lentas; os animais consomem, as plantas produzem; os animais emitem CO2, as plantas fixam CO2… e assim por diante até à síntese concludente que se traduz em dispersão versus concentração. Qualquer função que nos animais esteja confiada a órgãos específicos, nas plantas está dispersa por todo o corpo. Trata-se de uma diferença fundamental, cujas consequências são difíceis de compreender inteiramente.”

O investigador acredita que a abordagem dos humanos nunca foi a de tentar ter um grande entendimento das plantas, em vez disso tentamos replicar a nossa forma de ser e ver o mundo através das funções humanas.
“Na prática, o Homem procurou sempre replicar o essencial da organização animal na construção dos seus instrumentos. Tudo o que o Homem projeta tende a ter, de um modo mais ou menos evidente, esta arquitetura: um cérebro central que controla os órgãos que executam os seus comandos. Até as nossas sociedades estão construídas segundo este desenho arcaico, hierarquizado e centralizado.” Este modelo apresenta uma única vantagem: a de fornecer respostas rápidas. Já as plantas, ao não possuírem um órgão equiparável a um cérebro central, conseguem percecionar o ambiente envolvente com uma sensibilidade que é superior à dos animais e responder a esses estímulos de forma descentralizada e radicular, informa o académico.

“A complexa organização anatómica das plantas e as suas principais funcionalidades exigem um sistema sensorial muito desenvolvido que permita ao organismo explorar com eficiência o ambiente circundante e reagir com prontidão a acontecimentos potencialmente prejudiciais. Deste modo, a fim de utilizarem os recursos ambientais, as plantas recorrem entre outras coisas a um complexo sistema radicular formado por ápices em constante desenvolvimento, que exploram de um modo ativo o solo. Não é por acaso que a internet, o principal símbolo da modernidade, está construída como uma rede radicular”, reforça.

Com isto presente, o especialista e a sua equipa de investigação, descobriram várias características das espécies que eram desconhecidas, como por exemplo, ao fazer uma experiência com uma Mimosa pudica, uma planta cujas folhas se fecham quando é tocada ou abanada, perceberam que as plantas retêm memória por dois meses, mesmo que as condições a que estejam expostas se alterem. “Isto foi inesperado porque estávamos à espera que tivessem memórias muito curtas, num intervalo de um ou dois dias – a memória média dos insetos” afirma o professor.

Para o cientista qualquer vida, seja humana, animal ou vegetal tem consciência de si próprio. Para explicar esta premissa dá o exemplo de quando uma planta ofusca outra, a que fica à sombra cresce mais rapidamente para conseguir, também, alcançar a luz. Mas, por exemplo, quando olhamos para uma árvore, os ramos tanto estão à apanhar luz como sombra, e isso deve-se ao facto da sombra ser feita pela própria, evitando, desta forma, a necessidade dos ramos crescerem tão rápido.

Apesar de muitas pessoas verem as plantas como um ser em estado vegetativo e passivo, Stefano Mancuso considera-as seres comunicativos, que socializam através das suas raízes. As espécies são capazes de alertar ente si quando se encontram na presença de possíveis predadores, assim como, de atrair insetos polinizadores, além de detetarem campos eletromagnéticos gerados por outras formas de vida.

O cientista acredita ainda que esta ideia de que o Homem é o centro da Terra é perigosa e errada “Quando nos sentimos melhores do que todos os outros seres humanos ou outros organismos vivos, começamos a usá-los. É exatamente isso que estamos a fazer. Sentimo-nos como uma natureza externa” alerta.