A Natureza Detesta Linhas Retas – Lisboa Green Capital 2020
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A Natureza Detesta Linhas Retas

A artista Gabriela Albergaria inaugurou a primeira exposição antológica “A Natureza Detesta Linhas Retas” no passado dia 17 de outubro na Culturgest, em Lisboa. Aqui o balanço da sua atividade artística é refletido através de uma viagem pelos seus últimos 16 anos de criação.

A exposição que recebe o nome da frase proferida pelo arquiteto paisagista do século XVIII, William Kent, “Nature abhors a straight line”, para quem toda a natureza era um jardim, acaba por ser um resumo daquilo que é, em parte, o trabalho de Gabriela Albergaria. Com a curadoria de Delfim Sardo, a mostra está inserida na programação Lisboa Capital Verde 2020, e pretende mostrar-nos de perto os variados momentos no percurso da artista. Desta forma, estão reunidos vários trabalhos produzidos em locais como a Alemanha, Chile, Brasil, Reino Unido ou Bélgica.

A mostra congrega peças que são consideradas fulcrais no percurso de Gabriela, sendo exemplo disso a instalação realizada no Centro Cultural de Belém, em 2005, composta por uma árvore imensa que ostentava um processo de enxertia, e um conjunto de peças inéditas.

A artista, que vive e trabalha em Bruxelas, tem vindo a desenvolver um percurso centrado nas questões da relação com a natureza e a forma como a representamos, ou seja, desde os anos 90 que Gabriela tem-se debruçado nas relações de aculturação da paisagem e da natureza, a partir dos processos migratórios e da globalização iniciada no século XV.

É através da utilização de diversas metodologias – como a escultura, a fotografia, a instalação ou o desenho -,  do registo das transformações da paisagem pela ação humana, da modificação dos ecossistemas a partir das importações de espécies vegetais e da história da domesticação da natureza – presente na construção dos jardins botânicos no século XVII –  que a artista tem afirmando o seu core de trabalho, algo visível ao longo de toda a mostra.

A artista nascida em Vale de Cambra, em 1965, já teve exposições nos mais variados locais como “Terra/Território”, no Consulado Geral de Portugal em São Paulo (2015), “Two Trees in Balance”, Socrates Sculpture Park (Nova Iorque, 2015), “Não há coisa como a natureza”, Hacienda La Trinidad Parque Cultural (Caracas, 2013) e “Invertir la Posición”, Galeria Wu (Lima, 2012), num trabalho que envolve principalmente o território da natureza “Uma natureza manipulada, plantada, transportada, estabelecida em hierarquia, catalogada, estudada, sentida e renomeada através da exploração contínua de jardins em fotografia, desenho e escultura”, diz-nos a nota de apresentação.

Nas obras, os jardins são percebidos como “construções elaboradas, sistemas de representação e mecanismos descritivos que sintetizam um conjunto de crenças fictícias que são usadas para representar o mundo natural”, e são também “ambientes dedicados aos processos de lazer e estudo, culturais e sociais que produzem uma compreensão histórica do que é o conhecimento e o prazer”.

Na mostra, além da reconstituição de algumas obras centrais do seu percurso como Couche Sourde, 2010/2020 – um monólito aparentemente minimal construído com terra segundo metodologias oriundas da botânica e aludidas no título – podemos ver ainda uma sala temática dedicada à viagem e pesquisa efetuada pela artista na Amazónia, bem como uma sala de desenho dedicada ao Redwood National Park, um parque florestal norte-americano onde existem algumas das espécies mais relevantes desta zona.

O convite está feito, até 21 de fevereiro de 2021 passe na Culturgest e venha conhecer um pouco mais sobre esta artista que que nos leva à reflexão critica sobre a nossa relação com o natural, juntamente com a forma como encaramos a representação da natureza e do seu tempo em nós.